desencontros
Nossas mentiras tão sábias, doces e intolerantes não são mais segredos. Passou-se o tempo de acenar positivo para algo pelo qual nunca assumimos e hoje reconciliamos com perdão.
Não existe perdão sem lembrança.
Tampouco há perdão em cada cabeça-vento livre de obrigações sentimentais, amargas e obrigatoriamente obsessivas. Nenhuma dança no escuro, nenhuma faca sobre a mesa.
Nossos segredos contra a parede se misturam ao sangue espirrado ali de quando tirei minha primeira virgindade. Nem sei se é seu, se é de outra. Já passeei tanto por essa estrada que mais um caso de amor perdido é o mesmo que mais um samba-enredo no carnaval.
estilhaços em copacabana
Houve um momento onde minha incerteza sobre as coisas da vida corromperam meu juízo. Falei coisas das quais me arrependo e me recolhi ao silêncio porque é o único amém que conheço.
Me estranhava a situação de nunca estar acostumado a errar e de perceber que me incentivavam a pensar assim. Pois errei e um erro ou alguns poucos além de um foram suficientes para selar com trava de aço nossas portas. Às vezes me pergunto se existe métrica nos nossos pecados, se posso determinar até onde percorre nessa estrada o limite do perdão e da sanidade.
Atingir a profundidade de alguém e ser íntimo em cada pedaço de composição humana literalmente sob meu controle foi um perigo sem tamanho. Ter a vida de alguém nas mãos e poder destruí-la sem mais nem menos é algo assustador. Deus e você ou vocês sabem como errei, errei feio e sempre me arrependi, na mesma medida em que fui feliz, por ser assim. Experimentei o sabor de errar e de repetir cada um desses erros como se, na insistência de quem nunca acha que fracassa, houvesse saída de pecados tão mesquinhos.
Vocês não me querem mais por perto, tentei me desculpar e nesse disparo vazou arrogância. Meu maior defeito, meu pecado. Daí em diante não entendi o que e como fazer e só piorei as coisas, mas meu sentimento a respeito de vocês nunca mudou.
A maioria dos homens vive uma vida de desespero silencioso.
Quantos de nós, ainda novos, mesmo que cansados, fantasiamos saber mais sobre o mundo do que realmente sabemos? Quantos de nós, ainda novos, mesmo que cansados, desejamos cumprir com a palavra sem ao menos saber como cumpri-la? Quantos de nós, ainda novos, mesmo que cansados, desejamos apenas uma vez não termos sido abandonados? Quantos de nós percebemos a velhice antes da hora e desistimos de amar por amor apenas por ter medo de acabarmos na nossa própria e única companhia?
Quantos de nós sabem com naturalidade e vaidade o orgulho de posar imponente e vencedor na derrota, simplesmente assumindo que há poesia em nos dizermos velhos com vinte e poucos anos? Tragamos com soluços doses amargas e baratas de iniquidade a cada tropeço no escuro, a cada estigma afiado que rasga lentamente nossa pele e, ainda assim, contentamo-nos em sangrar imaginando que nos tornamos invencíveis. Quando todo nosso aço em um laço enfraquecer, venda minha alma ao diabo, pois meu corpo já estará no inferno.
Fui condenado por mim mesmo ao purgatório dos arrependidos. Sem fome, sono ou paz. Num quarto úmido e agonizante sem o brilho da lua ou o esplendor do sol, pois não há janelas. O mesmo suor que vaza trêmulo nas expressões de terror franzidas do meu rosto evapora e encolhe as paredes ao meu redor. Respirar está cada vez mais difícil, tenho sido cauteloso. Minha esperança - aliás, a única que me resta -, é um bilhete quase desintegrado pela umidade que ainda preserva, para minha ruína, sua mensagem original: “eu te amo”.
Não foi este sentimento que me trouxe onde estou. Foi sua potência transformadora, a agressividade desta flâmula que homens erguem vitoriosa e dançante entre os ventos e que permanece presa a mim em estado de espera.
Espere por mim.
terra celta
“Como é o show deles?”, quis saber a prima da Ana, Helena.
Minha primeira ideia para classificar Terra Celta, embora melancólica e até mesmo ridícula, foi lembrá-la a cena da terceira classe do Titanic onde o mocinho leva a mocinha para dançar no meio da gentalha. Podia comentar sobre The Pogues, não ia ajudar. Eu queria era mesmo transmitir o clima do que estava por vir. Titanic explicava bem.
Era bem isso o que eu pensava de Terra Celta.
No meio da bagunça, enquanto a Ana esparramava cerveja na jaqueta de um desconhecido e eu pulava em voltas com o Yuri, a Helena se aproximou: “você tava certo sobre o Titanic”, e virou-se para o show dando risada.
Não fosse pela ousadia e irreverência do Élcio na voz e no violino e pela timidez interrompida no Acorden do Arrigo, o Valentino não teria tanto prejuízo com cacos de vidro pelo chão.
Não tem problema, a gente busca outra.

Everything is a copy of a copy of a copy…
O que vou dizer é sobre nada. Sobre a falta de ter nada e sobre ter nada após nada. É sobre o vazio do ser. É sobre não sonhar e acordar com nada para fazer. Não pensar, não sentir, não falar… Não amar.
Quanto desse nada há em você?
Em mim, sempre nada.
Sempre que pode.
Quando não nada, morre afogado.
Quanto desse nada há em você?
Do nada que continua nada e cresce sendo nada entre nossas rugas. Do nada que cai com nossos cabelos, mas, ao contrário deles, o nada cresce outra vez. E, vez ou outra, esse nada que nada contra a corrente, mas que morre na praia sendo nada.
Quanto desse nada há em você?
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Quanto?
dois dias, uma tarde, uma noite
Cheguei de viagem e não tomei banho, estava cansado demais para isso. Deitei ao som do Mika. Antes, com o som já rolando, pigarreei a garganta para garantir que eu ainda era homem. Deitei e até arrisquei dormir, mas fiquei na saudade. Meu computador hibernou antes de mim e a música parou.
- Caralho.
Levantei da cama, tirei o caralho da boca - com Mika mais sensato seria tirar do ouvido - , fui ao banheiro e lavei o rosto, que a essa hora já estava marcado pelas dobras do travesseiro e com o suor que não me deixa esquecer que aqui é Londrina.
Saí de lá trincando as costas e sentei de pernas cruzadas para reiniciar o computador. Antes que a internet falhasse, tive tempo de conferir as novidades. As suas novidades, para ser mais sincero.
Deitei feliz.